Imaginemos que um incauto pesquisador de blogs se depara com este texto e que, por mera suposição, resolvia lê-lo. Por certo concluiria que um tal Peirce e um Décio Pignatari e mais alguns que estão citados, seriam gente que gostava de uns bons exercícios de reflexão filosófica, para não dizer que gostavam de “discutir o sexo dos anjos”. Já estou a usar uma metáfora com uma mistura de símbolo. Não faz mal, não há signos puros.
Mas quem é professor e tem consciência de que o seu êxito profissional depende significativamente da sua capacidade de comunicar, ou seja de conseguir utilizar os signos que levem à significação que ele pretende, compreende porque Peirce foi considerado o fundador da Semiótica e como foi importante a classificação dos signos. Ao ser possível perceber quais as principais característica dos diversos tipos de signos consegue-se saber quais as condições necessárias à sua significação e, como tal, utilizar os mais adequados ao intérprete e aos objectivos.
Fundamentos do Signo segundo Charles S.Peirce
Mas, afinal, para que serve a Semiótica? Serve para estabelecer as ligações entre um código e outro código, entre uma linguagem e outra linguagem. Serve para ler o mundo não-verbal: “ler” um quadro, “ler” uma dança, “ler” um filme – e para ensinar a ler o mundo verbal em ligação com o mundo icônico ou não-verbal. (...) A Semiótica acaba de uma vez por todas com a idéia de que as coisas só adquirem significado quando traduzidas sob a forma de palavras (Décio Pignatari, 2004 p. 20).
Precisamos “ler os signos com a mesma naturalidade com que respiramos, com a mesma prontidão que reagimos ao perigo e com a mesma profundidade que meditamos” (SANTAELLA, 2000 p. 11).
Mas o que é um signo?
Signo ou Representamen é aquilo que, sob certo aspecto ou modo, representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, isto é, cria, na mente dessa pessoa, um signo equivalente, ou talvez um signo mais desenvolvido. Ao signo assim criado denomino interpretante do primeiro signo. O signo representa alguma coisa, o seu objecto. Representa esse objecto não em todos os seus aspectos, mas com referência a um tipo de ideia que eu, por vezes, denominei fundamento do representamen. (PEIRCE, 1977, p. 46)
“…é algo que está para alguém por algo, sob algum aspecto ou capacidade…”(PEIRCE, 1978, p.121)
Assim, Peirce considerou o signo como uma relação triádica estabelecida por um intérprete (para quem a representação é signo) entre representamen, interpretante e objecto. O intérprete ao interpretar o signo, procede à associação objecto-representamen-interpretante.
Peirce criou um método lógico de podermos classificar um signo, como se fosse uma grelha que nos permite descrever, analisar e interpretar linguagens.
A classificação dos signos foi uma das grandes contribuições de Charles Sanders Peirce à Semiótica – As Tricotomias de signos
AS TRICOTOMIAS E AS SUAS RELAÇÕES
Relação signo/representamen - o signo é analisado na relação consigo mesmo:
- Qualidades (quali-signo);
- Factos ou ocorrências (sin-signo);
- Natureza de leis ou hábitos (legi-signo).
Relação signo/interpretante – o signo é analisado na relação que mantém com o seu interpretante:
- Possibilidade, apresentando-se ao interpretante como mera hipótese (rema);
- Traduz um facto, pode ser entendido como preposição, o seu valor pode verdadeiro/falso (dicentes);
- Sendo leis, remete para um sistema de regras (argumentos).
Relação signo/objecto – o signo é analisado na relação que mantém com o objecto:
- Similaridade (ícone, signo icónico);
- Conexão de facto, não cognitiva (índice);
- Hábitos de uso, relação arbitrária, convencional (símbolo).
SIGNO ICÓNICO
Porque a principal relação que o signo icónico de Peirce mantém com o objecto é de similaridade, ou seja de semelhança, esta designação é muitas vezes tomada como sinónimo de imagem figurativa.
Peirce subdividiu os ícones em três categorias (hipoícones), com base na natureza da semelhança entre o signo e o objecto:
- Imagens – semelhança qualitativa – ex.: fotografia;
- Diagramas - semelhança estrutural ou semelhança de relações-esquema
- Metáforas – existência de paralelismo qualitativo – Ex.:figura de retórica;
ÍNDICES
Segundo Peirce no acto de significação, ou seja no processo em que “uma coisa” é signo, estão feitas inferências pelo intérprete em face do significante.
No caso do símbolo visual, como o modo de significação se baseia em convenções, faz pressupor que a aprendizagem das regras que produzem a associação entre significante e significado permitirá a interpretação posterior do signo.
Mas, a interpretação dos índices já não goza da mesma facilidade, uma vez que não assenta em regras fixadas à priori. Assim, e no caso educativo, deve ter-se especial atenção quando se passam várias mensagens visuais de natureza indicial, uma vez que a sua interpretação não é intuitiva, nem uma competência espontânea. A leitura semiótica de um índice exige aprendizagem prévia. [1].
[1] Pereira, Alda , Os Elementos Fundadores do Signo Visual, p.18
