31 janeiro 2007

O SIGNO SEGUNDO PEIRCE

Introdução

Imaginemos que um incauto pesquisador de blogs se depara com este texto e que, por mera suposição, resolvia lê-lo. Por certo concluiria que um tal Peirce e um Décio Pignatari e mais alguns que estão citados, seriam gente que gostava de uns bons exercícios de reflexão filosófica, para não dizer que gostavam de “discutir o sexo dos anjos”. Já estou a usar uma metáfora com uma mistura de símbolo. Não faz mal, não há signos puros.

Mas quem é professor e tem consciência de que o seu êxito profissional depende significativamente da sua capacidade de comunicar, ou seja de conseguir utilizar os signos que levem à significação que ele pretende, compreende porque Peirce foi considerado o fundador da Semiótica e como foi importante a classificação dos signos. Ao ser possível perceber quais as principais característica dos diversos tipos de signos consegue-se saber quais as condições necessárias à sua significação e, como tal, utilizar os mais adequados ao intérprete e aos objectivos.


Fundamentos do Signo segundo Charles S.Peirce


Mas, afinal, para que serve a Semiótica? Serve para estabelecer as ligações entre um código e outro código, entre uma linguagem e outra linguagem. Serve para ler o mundo não-verbal: “ler” um quadro, “ler” uma dança, “ler” um filme – e para ensinar a ler o mundo verbal em ligação com o mundo icônico ou não-verbal. (...) A Semiótica acaba de uma vez por todas com a idéia de que as coisas só adquirem significado quando traduzidas sob a forma de palavras (Décio Pignatari, 2004 p. 20).

Precisamos “ler os signos com a mesma naturalidade com que respiramos, com a mesma prontidão que reagimos ao perigo e com a mesma profundidade que meditamos” (SANTAELLA, 2000 p. 11).


“…todo o pensamento é um signo” (PEIRCE).


Mas o que é um signo?

Signo ou Representamen é aquilo que, sob certo aspecto ou modo, representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, isto é, cria, na mente dessa pessoa, um signo equivalente, ou talvez um signo mais desenvolvido. Ao signo assim criado denomino interpretante do primeiro signo. O signo representa alguma coisa, o seu objecto. Representa esse objecto não em todos os seus aspectos, mas com referência a um tipo de ideia que eu, por vezes, denominei fundamento do representamen. (PEIRCE, 1977, p. 46)


“…é algo que está para alguém por algo, sob algum aspecto ou capacidade…”(PEIRCE, 1978, p.121)


Assim, Peirce considerou o signo como uma relação triádica estabelecida por um intérprete (para quem a representação é signo) entre representamen, interpretante e objecto. O intérprete ao interpretar o signo, procede à associação objecto-representamen-interpretante.

Peirce criou um método lógico de podermos classificar um signo, como se fosse uma grelha que nos permite descrever, analisar e interpretar linguagens.
A classificação dos signos foi uma das grandes contribuições de Charles Sanders Peirce à Semiótica – As Tricotomias de signos


AS TRICOTOMIAS E AS SUAS RELAÇÕES



Relação signo/representamen - o signo é analisado na relação consigo mesmo:

  • Qualidades (quali-signo);
  • Factos ou ocorrências (sin-signo);
  • Natureza de leis ou hábitos (legi-signo).

Relação signo/interpretante – o signo é analisado na relação que mantém com o seu interpretante:

  • Possibilidade, apresentando-se ao interpretante como mera hipótese (rema);
  • Traduz um facto, pode ser entendido como preposição, o seu valor pode verdadeiro/falso (dicentes);
  • Sendo leis, remete para um sistema de regras (argumentos).


Relação signo/objecto – o signo é analisado na relação que mantém com o objecto:


  • Similaridade (ícone, signo icónico);
  • Conexão de facto, não cognitiva (índice);
  • Hábitos de uso, relação arbitrária, convencional (símbolo).


Um signo nunca aparece como signo "puro". A tricotomia peirceana é um método de análise que permite distinguir entre diferentes aspectos da semiose, mas, quanto à sua realização ou ocorrência no mundo, nenhum signo pertence exclusivamente a uma destas classes. Os signos podem assumir características diversas segundo os casos e as circunstâncias em que usamos.


SIGNO ICÓNICO

Porque a principal relação que o signo icónico de Peirce mantém com o objecto é de similaridade, ou seja de semelhança, esta designação é muitas vezes tomada como sinónimo de imagem figurativa.

Peirce subdividiu os ícones em três categorias (hipoícones), com base na natureza da semelhança entre o signo e o objecto:


  • Imagens – semelhança qualitativa – ex.: fotografia;
  • Diagramas - semelhança estrutural ou semelhança de relações-esquema
  • Metáforas – existência de paralelismo qualitativo – Ex.:figura de retórica;

ÍNDICES

Segundo Peirce no acto de significação, ou seja no processo em que “uma coisa” é signo, estão feitas inferências pelo intérprete em face do significante.

No caso do símbolo visual, como o modo de significação se baseia em convenções, faz pressupor que a aprendizagem das regras que produzem a associação entre significante e significado permitirá a interpretação posterior do signo.

Mas, a interpretação dos índices já não goza da mesma facilidade, uma vez que não assenta em regras fixadas à priori. Assim, e no caso educativo, deve ter-se especial atenção quando se passam várias mensagens visuais de natureza indicial, uma vez que a sua interpretação não é intuitiva, nem uma competência espontânea. A leitura semiótica de um índice exige aprendizagem prévia. [1].






[1] Pereira, Alda , Os Elementos Fundadores do Signo Visual, p.18

20 janeiro 2007

SEMIÓTICA DAS REPRESENTAÇÕES VISUAIS

PAPEL DAS IMAGENS NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO


DAS PINTURAS RUPESTRES … AO … “BIT”

Porque a escrita é razão de “ver”, ao fazê-lo sobre o conceito de imagem, percebi que esta, enquanto representação gráfica, tem sido, ao longo da história do homem, o grande motor de transmissão e construção do conhecimento.

Na história da humanidade o tempo começou a passar de forma diferente depois da imagem começar a ser divulgada com facilidade. Em 1436, Johann Gutenberg inventou a tecnologia da impressão e tipografia.

Johan Gutengerg


A partir daí, e à medida que este invento contribuía activamente para a revolução científica, o homem, como ser criativo, desenvolveu a tecnologia de forma a pôr a ciência ao seu serviço e os inventos foram surgindo - Nicéphore Nièpce e Louis Jacques Mande Daguerre entre 1826 e 1839 inventam o processo fotográfico. Esta nova forma de criar imagens influenciou não só a ciência mas também a pintura. Nessa altura a pintura e a fotografia evoluíram por caminhos paralelos. No que se referia à representação fiel da realidade, a pintura não podia competir com a fotografia, mas esta vinha libertar os pintores da representação mimética da realidade.

Thomas Alva Edison em 1891 apresenta as primeiras imagens em movimento e em 1895 os irmãos Lumière inventam o cinema. Ainda em 1895 Marconi e Popoff transmitem mensagens sem fio. Em 1906 Fessender transmite voz humana por rádio. Com a invenção da rádio surge um meio de comunicação que não depende da impressão, dos transportes e que está ao alcance do público iletrado. Entre 1940 e 1959 a televisão chega ao dia a dia dos países desenvolvidos, tendo a sua difusão multiplicado a quantidade de informação que chegava ao público anónimo. Ela formou sensações e permitiu o acesso a acontecimentos longínquos.

Como se pode ver a evolução do conhecimento e da ciência não variou de forma directamente proporcional, mas sim exponencial, em relação à evolução da capacidade de criar imagens gráficas, signos ordenados simbolicamente com determinado sentido, criando linguagens capazes de descrever o mundo.

Como diz o texto, “as imagens como signos de representação gráfica permitem o registo condensado de experiências, a sua perduração e transmissão”.

Nos últimos 50 anos assistimos ao despoletar de novas técnicas de transmissão de imagens e, como consequência, ao despoletar também de uma nova forma de construção do conhecimento. Entrámos na era do digital.

“Até agora a ciência operava de duas formas básicas: por descoberta e por invenção. Hoje existe uma terceira forma de realizar ciência: a construção de representações do mundo. Não se trata de descobrir uma nova espécie, nem de inventar um novo engenho, mas de construir artefactos formais de expressão do pensamento”[1].

O homem criou modelos matemáticos (Álgebra de Boole – a lógica), capazes de representar modelos de pensamento, imagens e linguagens que descrevem a realidade. Esses signos organizados e orientados em determinado sentido permitiram a criação de linguagens responsáveis por esta enorme capacidade de armazenar, processar e transmitir imagens e conhecimento que existe hoje ao nosso dispor.

Mas, como sempre, existe o revés da medalha. Hoje, a visualidade é de tal forma impregnante que, muitas vezes, interdita a nossa própria subjectividade, impedindo-nos de “significar”. Não é por acaso que nos mídia a imagem é alvo de profundo estudo, uma vez que é capaz de nos inculcar as representações pretendidas por quem as produz. De todos os sentidos, aquele que tem maior poder de inculcação é o visual e, uma vez aliado às novas tecnologias de transmissão, o mais poderoso e o mais perigoso.
E … tudo por causa de uns “0” e “1” …, o dito bit.


[1] Câmara, Gilberto engenheiro de electrónica, mestrado e doutorado em Computação. Entrevista ao Jornal da Universidade Estadual de Campinas, Brasil, em Agosto de 2004.